Ser a pessoa que resolve tudo no trabalho, aquela que sempre entrega além do esperado, pode parecer um caminho para o sucesso. Mas, e se essa dedicação fosse, na verdade, uma rota expressa para o esgotamento? Muita gente passa por isso sem perceber, enredada naquilo que especialistas já chamam de “ressaca de competência”.
É uma condição onde sua própria excelência te coloca numa espiral de responsabilidades que parecem não ter fim. Peter Duris, CEO e cofundador da plataforma de carreiras Kickresume, está chamando a atenção para esse fenômeno. Ele explica que ser tão bom no que faz a ponto de todos dependerem de você para tudo, muitas vezes, leva ao burnout.
O preço da excelência: quando a proatividade vira peso
O conceito de “resiliência” tem sido distorcido no ambiente corporativo, virando sinônimo de “aguentar tudo” sem questionar. Essa visão, conforme o Estadão apontou recentemente, abre caminho para prejuízos sérios à saúde mental.
Duris, cuja plataforma já ajudou milhões de pessoas a conseguir empregos em gigantes como Google e Apple, tem uma visão privilegiada sobre os hábitos de profissionais de alto desempenho. E o cenário que ele descreve é preocupante: “Querer garantir que tudo seja feito com alto padrão é ótimo, mas isso também pode cobrar seu preço ao longo do tempo, levando a um estresse desnecessário”, alerta.
A “ressaca de competência” é exatamente isso: aquele tipo de burnout que surge quando a pessoa se sente inerentemente responsável por manter tudo funcionando. Em outras palavras, quanto melhor você é no seu trabalho, mais difícil se torna parar de fazê-lo ou até mesmo delegar.
A culpa, a pressão e o medo no mercado de trabalho de 2026
Não é apenas uma questão de escolha individual. Pesquisas da própria Kickresume revelam que quase metade dos americanos (48%) enfrenta a síndrome do impostor e, como consequência, trabalha demais. Um terço desses profissionais se sente culpado ao tirar folga, e quase um em cada cinco sente uma pressão enorme para continuar trabalhando mesmo quando está doente. Isso pode estar acontecendo agora com você ou alguém que você conhece.
A pressão não vem só da cabeça. Em um mercado de trabalho que, em 2026, continua desafiador, com promoções estagnadas e a inteligência artificial ameaçando discretamente diversas categorias de empregos de escritório, muitos profissionais de alto desempenho sentem que não têm outra opção senão ir além, apenas para garantir sua segurança no emprego. “Se isso soa como você, vale a pena dar um passo atrás e reduzir sua carga mental”, aconselha Duris.
Por que ir além pode sair pela culatra: a armadilha do “superfuncionamento”
A armadilha é quase invisível. Você se oferece para assumir um projeto extra, fica até mais tarde para resolver um problema que ninguém mais conseguiu, ou diz “sim” para mais uma tarefa porque, no fundo, sabe que é o único que vai fazê-la “certo”.
Você assume um pouco mais, depois mais um pouco, e, quando percebe, já está silenciosamente com muito mais do que sua parte justa. A Kickresume descreve isso como “superfuncionamento”, impulsionado inicialmente pelo medo de que o trabalho não seja bom o suficiente. Com o tempo, esse medo se solidifica em um hábito.
Profissionais que constantemente se excedem começam a sentir o peso de toda a responsabilidade sobre seus ombros. Nesse ponto, recuar não é apenas desconfortável; parece impossível. “Ser a pessoa de quem todos dependem pode ser muito desgastante e levar ao burnout”, alerta Duris. A ironia é que essa dedicação aparente pode, de forma sorrateira, corroer o desempenho e impactar tanto o colaborador quanto a empresa.
Diferentes pesquisas mostram que metade dos trabalhadores está no limite atualmente. E esse burnout generalizado, acompanhado pela falta de engajamento, drena cerca de US$ 438 bilhões em produtividade perdida todos os anos.
Quebrando o ciclo: passos para evitar o esgotamento
O primeiro passo, de acordo com Duris, é confrontar o perfeccionismo que provavelmente te trouxe até aqui. “É importante entender que você não precisa ser perfeito no trabalho nem na vida”, diz ele. “E que ir além é um bônus, não uma exigência o tempo todo.” Dar a si mesmo permissão para fazer o suficiente, em vez de tudo, é mais difícil do que parece para quem é cronicamente superprodutivo. É um erro comum tentar abraçar o mundo.
Marcela Mansur Alves, psicóloga e professora da UFMG, reforça que o impacto do perfeccionismo na saúde mental pode ser devastador, levando a quadros de ansiedade e depressão. Portanto, buscar um equilíbrio é fundamental.
Aprendendo a dizer “não” de forma estratégica
Depois de lidar com o perfeccionismo, vem o hábito mais difícil de quebrar: o “sim” por padrão. “Ajudar os outros é ótimo, mas também pode aumentar sua carga de trabalho se você assumir coisas demais”, explica Duris. Em vez de aceitar tarefas sem questionar, ele sugere uma abordagem diferente: “Você pode tentar dizer que talvez consiga ajudar depois de terminar uma tarefa prioritária. Assim, você não se compromete automaticamente com mais trabalho.”
É uma pequena mudança na forma de falar que, no entanto, oferece o espaço necessário para que você avalie de fato o que consegue assumir antes de concordar. Não é desinteresse, é gestão de energia.
Se o cansaço, o ressentimento crescente e a sensação de que simplesmente não consegue desligar já se instalaram, Duris é direto: “Se você está sentindo os sintomas de burnout e de uma ressaca de competência, pode ser hora de dar um passo atrás.” Isso pode significar reduzir as horas extras para melhorar o equilíbrio entre vida pessoal e profissional e focar nas prioridades essenciais.
Diminuir as horas extras não é sinal de desleixo; é o único caminho realista de volta a uma carga de trabalho sustentável. Ser a melhor pessoa do escritório e a mais esgotada não precisam andar juntos. Às vezes, a decisão mais inteligente é simplesmente saber a hora de parar e, se necessário, procurar ajuda profissional para lidar com o estresse e a sobrecarga.
Vale lembrar que este conteúdo é informativo e não substitui avaliação profissional de saúde.









